VULNERABILIDADE, O MINDSET NECESSÁRIO.

Começo por dizer que sou aquele género de pessoa que mediante este tipo de temas, tenho uma tendência natural para os desvalorizar e associar a questões de auto-ajuda ou de senso comum, tópicos que para mim merecem o maior desprezo, dada a minha formação cientifica/investigação, baseada em factos observáveis, mensuráveis e discutíveis numa perspetiva realista e racional. Mas, recentemente a par de investigação que fiz para a construção de um curso no âmbito profissional a ministrar num cliente, voltei a deparar-me com um fantasma do passado que pontualmente tem marcado presença na minha vida – a vulnerabilidade.

E consequentemente, não pude voltar costas a este tema, como já tantas vezes tinha feito de forma inconsciente. Respirei fundo, centrei-me na necessidade de fazer acontecer e disse a mim mesmo: “ agora é de vez! Ou resolves isto ou ficas com mais este “apêndice” em permanente na tua vida! Bom, dito isto, falar é fácil…concretizar é outra coisa!

Assim dei mote ao meu desafio que passou despercebido a tantos, mas que na verdade me tirou muitas horas de sono (eu sou aquele género de pessoa que adormece e acorda com um tema em mente… seja lá o que isso for…), e pensei, se vou falar sobre a vulnerabilidade e potenciar a sua aceitação nos outros como algo positivo, não como fragilidade ou algo negativo a esconder, como posso eu ser convincente, se na minha essência não acredito nisso? Eis a questão! Depois fiz um exercício de memória, e percebi que naturalmente e fora os estereótipos que construímos acerca de nós próprios (o designado EU IDEAL), já tinha feito parte do percurso da assunção da vulnerabilidade, só que não tinha interiorizado esse facto.

Na verdade, o que é aceitar a nossa vulnerabilidade? Saber aceitar as críticas de outros, sem juízos de valor? Aceitar um desafio sem saber se vamos ter sucesso no fim? Partilhar algo íntimo sem receios de perceções erradas? Assumir que não sabemos fazer algo, sem achar que isso nos vai prejudicar profissionalmente? Bom… a lista é interminável, mas demasiadamente simples quando analisada de forma precisa: ser vulnerável é aceitar-me! É assumir que não sou perfeito e que as minhas vulnerabilidades não são fragilidades, mas sim potenciais de desenvolvimento, que quando devidamente consciencializadas são os alicerces de um processo de maturidade profissional e pessoal contagiante e transformador da experiência de vida. Portanto, abracei a vulnerabilidade! Percebi a importância deste tema na contemporaneidade, quer em ambiente de trabalho, quer na vida pessoal e perdi um pouco do pudor e resistência a mostrar “as minhas vulnerabilidades”. Consciencializada a ideia, de seguida perguntei a mim mesmo: “e o que quer isto dizer?” Respondo pragmaticamente, em lista:

  • Aceitar a crítica, mesmo daqueles que numa primeira perceção achamos que não têm qualquer legitimidade para o fazer (isto não significa concordar, mas sim refletir de forma consistente sobre a mesma).
  • Perceber que tentamos criar verdades universais em tudo o que analisamos e discutimos, e na verdade isso não é possível… o “cinzento” existe mesmo!
  • Cada dia, estar disposto a aceitar desafios e a tirar algo destes que altere o meu comportamento, mesmo não sabendo que resultados vou obter.
  • Aceitar que não sou perfeito e que as minhas “imperfeições” não são algo negativo, mas sim, aspetos que definem a minha singularidade e que me motivam a ir mais longe.
  • Ser consciente, ativo, presente e disponível para a quebra de rotinas (estas são as nossas piores inimigas… criam uma falsa sensação de conforto), que seja efetiva, consciente e transformadora.
  • Por último, ser honesto comigo mesmo, auto-consciente e assumir que não sei tudo, para além da minha esfera há todo um outro mundo a descobrir… vamos lá?

Feita esta primeira consciencialização, pensei: eu sou mesmo essa pessoa?

Na verdade, o desafio implícito neste processo, é que nunca conseguimos responder a esta questão, porque ela depende da interação com os outros e o feedback que obtemos destes; assim como, depende na nossa própria maturidade, ou seja, conseguir soltar amarras de uma série de verdades que construímos sobre nós próprios, que na verdade, não o são. Mas sim, existe um mas… podemos consciencializar tudo isto, e se o fizermos naturalmente as nossas ações vão impactar a resposta que vamos obtendo no dia-a-dia na relação quer profissionalmente, quer pessoalmente com quem lidamos.

No âmbito profissional este tema é da maior importância quando já se fala nas DDO(Deliberatily Development Organizations) em que se parte precisamente da vulnerabilidade das pessoas como principio básico de potencial e desenvolvimento da organização, assumindo um compromisso efetivo entre resultados e envolvimento de todos nos mesmos, percebendo o porquê e como podem acrescer valor no atingir destes. Sempre com o leitmotiv presente de pertença, envolvimento, crescimento e sentimento do todo, apostando no que pode ser desenvolvido em termos de capital humano verdadeiramente, criando um fator diferencial das organizações na atualidade; onde as supostas “fraquezas” são encaradas como forças e os erros como oportunidades de desenvolvimento. Resumindo, uma nova política de Recursos Humanos nas Organizações, em que o conceito de Recursos Humanos não é o de um departamento, mas sim todas as pessoas de forma transversal na organização.

Claro que todo este processo de gestão não é fácil, nem confortável. Na essência é desenvolvido sob uma “construtive destabilization” com três fatores chave: “trust, pain and care – pain plus reflection equals progress”. Onde os colaboradores são convidados em permanente a falar das suas vulnerabilidades, dos períodos mais dolorosos que viveram profissionalmente, e esse é o ponto de partida para um crescimento e maturidade profissional sólida. Trata-se de um processo constante em que os colaboradores estão a trabalhar sobre eles mesmos e simultaneamente a desenvolver competências chave para a organização. Contudo, o papel desta é essencial na tradução de um sentimento de comunidade, de conforto e confiança que permite esta exposição e faz a transferência para o plano de desenvolvimento profissional.

Então, fica claro que este processo não se divide entre o “eu individual”, e o “eu profissional”, até porque muitas das vulnerabilidades que temos, na verdade não incorrem nesta separação de esferas sociais. A importância deste tema, torna-se maior quando pensamos que se olharmos para a vulnerabilidade como uma competência, existe forma de a poder trabalhar, desenvolver e até mesmo ultrapassar, tornando-a a base de um processo de crescimento profissional sobre o qual podem assentar as próprias avaliações de desempenho, envolvendo os eternos eixos quantitativos e qualitativos.

O desafio está em questionar os processos estabelecidos no que respeita aquilo que chamamos fraquezas e que tendencialmente escondemos. Como ultrapassar esta primeira barreira? Como nos sentirmos confiantes para em ambiente profissional expormos o que nos esforçamos arduamente por esconder? Como vai ser encarada a situação?

Por outro lado, a organização está disponível para tal? As pessoas que a constituem estão disponíveis para o processo? O que acarreta a vulnerabilidade? São muitas as questões que encontramos e que no momento exigem todo um primeiro percurso de reflexão e consciencialização antes de podermos avançar no sentido da transformação de cultura da organização para trabalhar a vulnerabilidade.

Então, voltemos ao início. Porquê enfrentar a vulnerabilidade?

No meu caso, porque percebi que só assim pude desenvolver competências escondidas em juízos de valor e fragilidades mal resolvidas; porque mais do que consciencializar as minhas fraquezas, o importante é enfrentá-las, trabalhando-as de forma construtiva. Percebi que existe um gap entre aquilo que fazemos e aquilo que dizemos; entre aquilo que sentimos e aquilo que dizemos; entre aquilo que projetamos para nós próprios e o que realizamos, e que esse gap, é na verdade a vulnerabilidade. Essa pequena diferença, tem um impacto tremendo nos resultados e dinâmicas com outros. Esse gap é o responsável pela desmotivação profissional, pessoal, pelo incumprimento de objetivos e mais do que tudo, pela ausência de desenvolvimento e crescimento profissional e pessoal.

A par disto, é importante não esquecer que muitas das vezes existe uma crença que os adultos não se conseguem desenvolver de forma consistente. Que não conseguem adquirir facilmente novas competências, e que ficam estagnados em determinada posição ou função eternamente. Bom, é minha crença que talvez exista um fundo de verdade nisto tudo. E porquê? Porque o que os impossibilita é não aceitarem as vulnerabilidades; estas são as verdadeiras barreiras e não a idade ou processo de maturidade. O mindset necessário para tal é precisamente este que exponho aqui: reconhecer, abraçar e enfrentar a vulnerabilidade, só assim é possível desenvolver em pleno o potencial individual e construir uma organização de excelência, madura, saudável e consistente através das pessoas que a representam. Vamos trabalhar as nossas vulnerabilidades? Fica o desafio!

Rui Pedro Carvalho