O FORMADOR SINGULAR

O FORMADOR SINGULAR

Recentemente em ambiente profissional, tenho-me deparado com algumas questões essenciais referentes ao papel do formador no contexto da consultoria, mais especificamente no processo de desenvolvimento de programas em clientes. Colegas que neste momento estão a tirar a sua certificação, ou outros que já certificados, ainda não tiveram a oportunidade de desenvolver competências inerentes à função de formador, questionam-me sobre o que é na verdade ser Formador no contexto organizacional, e como se adquire aquela “singularidade” individual que impacta na experiência de sala com os formandos? Pois bem, a resposta a esta questão tem por base três condições essenciais que um Formador na contemporaneidade deve agregar, a par das competências base necessárias.

Inteligência Social – diria que é a mais importante; compreender o meio, ser curioso, insaciável na procura de informação, para depois saber como posso interagir nesse mesmo meio e fazer a adaptação dos conteúdos formativos de forma natural, é essencial. O princípio básico da IS traduz-se na consciência social, para conseguir adquirir a facilidade social, ou seja, se eu nunca conhecer o meio onde interajo, suas normas, cultura, visão… nunca vou conseguir interagir em consonância e promover ressonância no meu comportamento. Aqui realço a necessidade de desenvolver competências na área da acuidade empática e na cognição social, com a finalidade de estas se traduzirem na influência, autoapresentação e sincronia necessária á interação com o cliente e formandos.

Criatividade – condição necessária, quando na realidade os conteúdos formativos tendem a ser permanentes na sua base. Mais do que inovador, ser criativo na abordagem, na apresentação dos conceitos e nas dinâmicas. Tenham como exemplo, uma exposição ou filme que tenham visto recentemente e que vos tenha marcado de alguma forma, porque não trabalhar conteúdos formativos partindo da narrativa desse filme, ou da estética da exposição? Na essência, o que pretendo referenciar neste ponto, é muito claramente a integração das nossas várias realidades e dos vários papeis que vivemos no quotidiano, criando uma compatibilidade entre eles que é uma mais-valia na forma como abordamos os temas. Não devemos separar os papéis (social, profissional, familiar…) mas sim dilui-los, aproveitando o que cada um pode contribuir para os outros e simultaneamente identificar-te como tu mesmo em tudo o que fazes, com coerência e diferença. Recriar é algo que está na nossa essência, porque é implícito ao nosso autodesenvolvimento, logo não devemos reprimir esta condição.

Multidisciplinariedade – contrariar a tendência muito presente na formação de só ministrar conteúdos com os quais me sinto confortável, ou só fazer entrega e não conceção, ou ainda de não gerir todo o processo desde a deteção de necessidades ao follow up. O Formador tem que ser alguém que pense de forma global e transversal, a sua área de atuação e as que estão direta ou indiretamente associadas. Na minha perspetiva, o Formador deve ter o máximo de experiências possíveis em áreas diferentes e em ambientes distintos. É na integração deste background e na forma como o aceitamos como complemento às nossas competências, que muitas vezes reside o segredo da adequação dos conteúdos em sala aos formandos, provocando aquela experiência formativa, de sintonia e partilha que muitos formadores não conseguem atingir.

A par destas três condições, existe o core do Formador, ou seja, compreender claramente porque dá formação. O que significa isso para si mesmo. O que pode dar aos outros e como isso pode mudar o percurso dos formandos depois de saírem de sala. Aqui diria que este caminho de procura vai sendo feito á medida que se acumula experiência de sala, mas essencialmente, saber-se questionar permanentemente é a peça chave. Sair da zona de conforto e “abraçar” as pessoas que eventualmente nos estimulem e desafiem com perceções diferentes das nossas é um requisito obrigatório. Ver a formação como um agente de mudança na interação com os outros e não uma obrigação de ministrar “uma cartilha de temas” faz toda a diferença. A singularidade está na ação do Formador e aceitá-la primeiro, consciencializando estes aspetos e depois ter o prazer de a devolver aos outros é o desafio.

Rui Carvalho