FELICIDADE

Felicidade, umas quantas mensagens de whatsapp de estímulo.

Se bem que é entendido por todos que a felicidade é um estado emocional, sem o qual não podemos viver, mais é a procura da mesma em cada momento da vida. O que fazemos nós para encontrar a felicidade? Ou, porque queremos de forma tão imperiosa ser felizes? Em última instância o que é a felicidade?

Numa primeira análise, ao olhar ao meu redor e ao fluir dos tempos modernos, diria que a maioria das pessoas de forma inconsciente associa a felicidade ao consumo, ao ter bens materiais, isto porque estamos absolutamente e de forma permanente sujeitos a estereótipos de “lifestyle” que ilustram a felicidade como algo em que cada um tem que ter um conjunto de bens e ações que implicitamente se adquirem com dinheiro, e logo por associação, a felicidade está assente no poder do dinheiro. OK, já sei que muitos se vão insurgir e dizer aquelas máximas de que não, o dinheiro não compra a felicidade, e que para eles são outro tipo de ações que permitem ter felicidade, mas na verdade e retirando esta lente de disfarce e não assunção de realidade, quantos de nós conseguem ser feliz sem dinheiro, ou sem bens que nos dão uma satisfação imediata? Aquela sensação de dormência de plena satisfação imediata? Poucos conseguirão dizer o contrário.

Então, porque tentamos encontrar uma outra dimensão de felicidade quase inatingível como o amor pleno, a realização pessoal ou profissional? O que nos motiva a procurar algo que não conseguimos definir e que muito dificilmente vamos encontrar, já que o ser humano está num permanente estado de insatisfação, onde o que me deixa satisfeito hoje, amanhã já não tem o mesmo efeito e me leva a tentar procurar algo mais além neste intuito da satisfação? Dito isto, eu não compro velhas máximas de senso comum que tantas vezes oiço, como se fossem normas absolutas do conceito de felicidade. Então o que é a felicidade e porque procuramos tanto esta coisa de um estado emocional que nos motiva, que nos alimenta e impele a continuar o nosso percurso?

Creio de forma muito consciente que a felicidade é um estado emocional individual que é diferente de pessoa para pessoa, e que se formos assim um pouco mais a fundo na questão, está muito assente no que durante o período da primeira socialização estivemos sujeitos em termos de estímulos e sensações, e por isso por vezes inexplicável, porque é algo inconsciente. Mas retirando estes conceitos mais técnicos, diria que a felicidade é o estímulo, o gatilho que nos impele à ação, que nos ajuda a ultrapassar as rotinas do quotidiano e de uma existência por vezes tão asséptica que só a procura desse estado da felicidade, é o alimento que nos permite continuar face a todos os obstáculos. Portanto a felicidade não é o “shangri lá” ou o estado de êxtase que se tenta “vender”, mas a energia estimulante (uma espécie de boost energético) que vamos obtendo nas várias esferas da nossa vida, profissional, pessoal, social… e que nos permite uma autoestimulação para a existência.

E como obtemos a felicidade? Pessoalmente, obtenho-a de formas tão diferentes como sentir-me pleno com uma música que oiço, um filme que vejo, uma conversa com alguém que estimula a fazer algo diferente, uma compra desnecessária que me dá aquela sensação de me sentir diferente, uma noite de copos com amigos, um reconhecimento no trabalho das minhas competências, um elogio, brincar com os meus gatos, um banho no mar, o cheiro de um livro, o estado de paixão por alguém… enfim a lista é interminável, porque na verdade são tudo estímulos e frações de um estado emocional de prazer que me mantém ativo na minha vida e que necessariamente preciso. Então, a felicidade é uma espécie de fuel da vida permanente e não um estado preciso que se tem que atingir. Ou seja, muitas das vezes estamos a tentar atingir aquilo que já temos, mas que a sociedade estabeleceu como algo a atingir, uma espécie de patamar na nossa existência e que requer uma série de requisitos para poder ser conquistado.

Na contemporaneidade este estado é algo que se quer no imediato e permanentemente. A felicidade como tantas outras coisas é quase tratada como um consumível, que se compra, que se obtém de outros, ou que se vive rapidamente e que necessita de ser reposto rapidamente. Zigmunt Bauman analisa esta tendência que todos vivemos de forma inconsciente no seu livro “amor líquido” em que retrata muitas das ações e relações que vivemos como se fossem um líquido que permanentemente nos escorre entre os dedos, não deixando qualquer vestígio ou construção de algo mais profundo. Quando uma relação começa a ter algumas dificuldades e nos deixa de dar felicidade rapidamente descartamos, quando um trabalho nos deixa de estimular e sentirmo-nos felizes, rapidamente desmotivamos exigimos mais e saímos, quando a vida que projetamos como uma imagem de felicidade plena não acontece, depressa fugimos aos obstáculos na procura de algo que não sabemos o quê, mas que garantidamente nos vai deixar mais felizes. Tudo é líquido, tudo tem que ser imediato, tudo requer uma urgência que na verdade não nos deixa viver o momento, fazer a conquista e usufruir da felicidade de ter conseguido atingir algo. Este estado de permanente urgência em atingir a felicidade é o pior inimigo à mesma, mas na verdade se olharmos em redor vemos a maioria das pessoas embrenhadas nele sem consciência de tal.

Posto isto, se queremos discutir a felicidade, temos que ir mais além dos chavões de senso comum e olharmo-nos primeiro de forma consciente e perceber o que nos traz felicidade, sem normativos religiosos, materiais, de status… apenas focando-nos nos momentos em que nos sentimos verdadeiramente felizes, e esses se analisarmos bem dependeram exclusivamente da interação com outros, das emoções sentidas, daquilo que provocaram em nós numa dimensão de autodescoberta e de autoconhecimento. E na verdade a felicidade não será isso mesmo? Eu sentir-me eu, de forma plena, confortável, confiante e motivado?

Rui Pedro Carvalho